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  • Luciano Antonio Carvalho

São Paulo Também Tem Céu

São Paulo também tem céu...


e é por isso que chove

venta, garoa e faz frio

a lua amarela cinzenta

gigante pizza

a borda do horizonte

um paraíso distante

sobre o ar torrado e palpável nos dias de sol


helicópteros cruzam

aviões e nuvens


saltei de um arranha-céu

e flutuei como uma folha até o chão

a densidade do ar

a descida pelo ar


São Paulo também tem céu

que desaba


o prefeito explicou que isso aconteceu

porque choveu demais



No fim de 2010 e começo de 2011 choveu muito em São Paulo. Antes e depois disso teve chuva mais forte, eu sei, mas naquele período eu estava trabalhando com o grupo Forte Casa Teatro na montagem de "Sobre concreto sonho", ensaiando quase todos os dias na Casa do Mestre Ananias, no Bixiga. Empolgado pelo processo criativo, compus muitas coisas nesse período. Esta canção foi uma delas. Escrevi primeiramente um poema, cujo manuscrito se perdeu, e que não tinha ainda os versos finais sobre o prefeito. O texto era basicamente sobre um dia muito quente de dezembro, em que a poluição me incomodou profundamente. Depois, em janeiro, diante dos desastres provocados pela chuva, e diante do reiterado discurso oficial que se exime da responsabilidade em tudo, fui ao piano e, numa tacada, fiz a música e a gravei, essa mesma gravação que aí está.

Afundada numa enchente de coisas, fui deixando essa música ficar lá, no baú, soterrada. Ela tem acidez, mas também tem dor, e a dor, muitas vezes, a gente tende simplesmente a deixar pra lá, que é pra não doer.

Mas agora, repassando meu material para publicar, futucando aqui e ali, achei que essa música, embora fora do momento invernal desta publicação, serviria para levantar as questões previamente, e me permitiria tratar de aspectos musicais, sem a paixão que o assunto da letra me suscitou à época de sua composição.

Entre outras coisas, venho pensando em abrir uma discussão sobre a "dissonância" musical. Não quero discutir sua definição, mas seus valores, seus aspectos culturais, seus usos etc. O aspecto cultural da dissonância, por exemplo, tem implicações étnicas e passa pela disputa por hegemonia e, naturalmente, aquele assunto ainda gigante do eurocentrismo, da cultura ocidental versus as outras culturas, mais "atrasadas".

Em relação a esta música em si, as dissonâncias da cidade de São Paulo me guiaram em certa medida nas escolhas que fiz no uso das dissonâncias ao compor, intuitivamente, primeiro, na letra, e mais conscientemente, depois, na composição musical. Penso que isso é do interesse de outros compositores, principalmente iniciantes, mas em geral.

Mas por enquanto é isso. Não deixem de escrever, dando sugestões de temas relacionados pra gente poder abordar, também.

Abraços!

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